ESCRITA
Para a minha mãe
Um dia vou escrever um livro sobre a minha mãe. Escreverei sobre a sua infância, das primaveras em Marinhais aos verões na Praia Verde, sobre a sua juventude lisboeta, que tanto a moldou na sua perspicácia e inteligência, e sobre todas as suas versões antes de eu nascer. Não esquecerei o amor pelo Mediterrâneo, pelas roupas boho chic e pelos colares de pedras azul turquesa.
Enquanto esse dia não chega, escrevo para celebrar as seis bonitas décadas que hoje comemora e o legado que traz com elas. A minha mãe é exímia em todos os papéis que desempenha – como mãe, filha, sobrinha, prima, sogra, comadre, amiga, colega, profissional. Não conheço, e desconfio que nunca conhecerei, quem saiba tão bem navegar nesses tantos e tão diferentes papéis, com a serenidade e a sensatez que só grandes mestres dominam. Tem um sentido de ética brilhante e uma sabedoria notável, que me fazem olhar para ela como a pessoa mais culta do mundo.
A minha mãe educou-me com um amor imensurável, daqueles que nos salvam nos dias realmente difíceis e nos permitem caminhar pelo mundo sabendo que haverá sempre um porto seguro, casa e colo. Ensinou-me que a liberdade anda de mãos dadas com a responsabilidade, e só sendo livres conseguimos aprender a ser verdadeiramente responsáveis. Disse-me que podia ser o que eu quisesse, desde que fosse sublime no que quer que eu escolhesse para mim – e não só me presenteou essa liberdade como me encorajou a sempre seguir a minha intuição, o que hoje me parece uma das melhores maneiras de me ensinar sobre confiança e segurança em mim mesma.
Somos feitas da mesma essência, mas um quanto diferentes na maneira de ser. Temos o mesmo sentido de humor e as mesmas ideias sobre o mundo, a humanidade e a justiça, mas divergimos no pragmatismo e na organização – ela é mais prática, eu sou mais organizada. Apesar de ser muito mais o que temos em comum do que o que nos distingue, mantemos a individualidade de cada uma, que é das coisas que mais gosto em nós.
Por mais pessoas que se cruzem no meu caminho, a minha mãe continua a ser a minha companhia preferida. Tudo o que sou e tudo o que serei tem o toque das esplêndidas mãos da minha mãe, uma verdadeira artesã nesta arte de educar uma filha enquanto navega todos os restantes desafios com a mesma perícia. Cresci com o melhor exemplo que eu podia seguir – e, enquanto não lhe escrevo um livro, dedico-lhe algumas palavras que levantam o véu de uma ínfima parte do quanto gosto dela.
Feliz aniversário, minha mãe ♡ que os teus 60 sejam magníficos!


